Testemunhamos juntos as consequências das alterações climáticas. Mas, apesar dos seus efeitos nefastos estarem à vista de todos, na voz de alguns dos mais proeminentes líderes políticos, estas ainda parecem ser um assunto no qual ‘‘se acredita ou não acredita’’. Analisando o carácter global das questões ambientais, construímos uma curta-metragem com a primeira intenção de falar de um bem essencial: a água, evocando a sua escassez como um problema civilizacional do presente e, principalmente, do futuro. Esquematicamente, antecipamos as ‘‘water wars’’ que as previsões vaticinam.
Sem diálogos, esta narrativa de ficção (delineando fundações celtas da tradição galaico-portuguesa), distende-se visualmente para apresentar o mais primordial dos conflitos: civilização versus natureza. Que possibilidades de harmonia entre os seres humanos a tentar sobreviver numa terra esgotada? Que soluções para a regeneração dos recursos? Numa outra era, sem definição temporal, a uma cena de guerra entre clãs (de aldeias contíguas), segue-se a fome e a miséria. Inesperada como uma aparição, das águas ascende uma deusa: NABIA. À salvação temporária desta comunidade rural, corresponde uma simbólica ‘‘Árvore da Vida’’, que fornece fruta depois de nascer, subitamente, numa ilha, no meio do rio. Em desenho circular, a vida sucede-se entre ciclos. Com a família como mais basilar estrutura, a compreensão do mundo acontece com a suavidade da transmissão intergeracional. As crianças aprendem a terra pela experiência dos anciãos. Da gravidez ao parto, hora do ‘‘rebentar das águas’’ da rapariga, inscreve-se uma ideia de renovação dos ciclos, pelo feminino.
Entre os azuis e verdes que evocam uma ligação poética à água, inscreve-se uma narrativa alegórica entre quadros que, como os cinemas de Pasolini ou Oliveira, transporta visualmente a vitalidade da tradição iconográfica. Crendo na potência da simplicidade, NABIA concentra-se fundamentalmente, no impacto visual da história, preservando os elementos em destaque.
Há vários anos que inúmeras associações e olheiros brotam da necessidade de defender os rios. E se as notícias destacam múltiplos casos de incumprimento sanitário, de descargas industriais e de elevados níveis de poluição, é da sociedade civil que partem as denúncias e as provas dos vários atentados ambientais. Inspirou-me este urgente sentimento de cuidado em relação ao que nos é mais próximo, e que vemos modificar-se drasticamente no espaço de uma vida.
Já vinculadas ao projecto, as jovens actrizes MARTA MARIZ e KIM OSTROWSKIJ têm em NABIA uma possibilidade de amplificar a sua presença no suporte audiovisual. Como demonstram os estudos de personagem, o trabalho de construção dramática está já a ser desenvolvido, em proximidade, com os actores. Também comprovadamente associada ao filme, a banda SANGRE CAVALLUM conta já com uma música intitulada NABIA CORONA, incluída no álbum Pátria Granítica, tema que servirá de ponto-de-partida para a criação da banda-sonora original. A afinidade temática com o imaginário da banda sustenta esta escolha e adianta a qualidade final dos resultados. Para além do carácter diferencial da abordagem, a relevância de um projecto experimental como NABIA reforça o cinema como um trabalho de equipa, dando espaço criativo à expressividade dramática dos actores, à direcção de fotografia, à cenografia, à direcção artística e à banda sonora.
Enfatizando o protagonismo concedido a esta espécie ancestral de feminino, NABIA faz corresponder a força dos vários vultos femininos às potências da Natureza. Sem deixar de referenciar ícones clássicos da representação arquetípica da religiosidade, esta história constrói um retrato do feminino pelo feminino, com vistas largas para a poderosa Super-Mulher do futuro.
Sabrina D. Marques
Realizadora / Argumentista
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